CARLOS MENSIL

ÀS COSTAS DA VERDADE

Inaugura a 19 de Setembro a partir das 16:00

                                 
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
 






O grande engano!
Carlos Mensil
Galeria Presença

Desde tempos primordiais que a arte tem a função de gerar emoções controversas. Sejam elas estranheza, surpresa, tristeza, ou felicidade. 
Imaginemos uma criança ou um adolescente do período neolítico que enche a sua mão de argila molhada, vermelha de preferência e, num dia de chuva, às escondidas do sacerdote responsável pela caverna, deixa a sua marca iconoclasta no lugar sacro. Seja o que for, de facto, não é a sua mão que está ali, mas sim uma imagem que se assemelha à forma da sua mão. Por outras palavras, os nossos olhos assim o descodificam e informam-nos que ali está uma “mão”. Só que não é uma mão. É uma imagem, ou seja, uma representação visual.

O mesmo podemos falar quanto às pinceladas de Cézanne que geram a imagem de uma maçã ou um conjunto delas, no caso de ser uma natureza morta. Ao aproximarmo-nos destas “maçãs” percebemos que são um conjunto de pinceladas rápidas e nervosas que, a uma distância de um metro, nos fornecem uma imagem do que nós achamos ser/descodificamos como sendo uma maçã. Podíamos referir inúmeros exemplos na história da arte e de outros artistas, como Courbet ou Manet, da história da pintura para acentuar e descobrir este maravilhoso “engano”. Esta predisposição de alguns artistas que, ao longo de séculos, se dedicam a pensar e conceber algo que acaba por gerar um desconforto no observador, o engano, a mentira da ilusão, o caricato da situação – “la bugia” (a mentira) - de que tanto falava Fellini. Noutras palavras, o clássico Trompe L’oeil. O enganar o olho como uma prática regular e predisposta, ou seja, numa palavra, planeada. 

O trabalho de Carlos Mensil agora em exposição na Galeria Presença obedece, no meu entender, aos argumentos acima explanados. Uma pesquisa que tem como princípio de trabalho, a criação de uma derradeira ilusão visual. Mensil acentua este “Grande Engano” através da manipulação da representação, tanto de espaços arquitectónicos exteriores, como de pequenos objetos banais que muitas vezes parecem ter sido realizados num determinado suporte, mas acabam por surpreender-nos. Por exemplo, o emprego do aço polido acentua, no momento da interação por parte do observador, os reflexos do espaço em redor e o insólito. Noutras obras, a mesma manipulação da ilusão é criada, mas sem a presença do reflexo. Qual o suporte? É esta pergunta que se coloca sempre. A pesquisa é coerente e o artista apresenta situações visuais de uma banalidade que é interessante e, ao mesmo tempo, desafiadora. Mensil é um manipulador da descontextualização de objetos banais do quotidiano. Objetos estes que, ao serem manipulados e intervencionados, ascendem a um outro patamar no reino destes. O objecto que engana!

Lourenço Egreja
Lisboa Setembro de 2015