MARISA FERREIRA

PRIMARY STRUCTURES: A PLACE BEYOND FAILURE

De 13 de Janeiro a 03 de Março 2018 | Inauguração dia 13 Janeiro a partir das 16H

             
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Muitas das ruínas industriais abandonadas que encontramos um pouco por todo o país são consideradas negativas para as comunidades locais, pelo facto de terem lançado para o desemprego centenas de pessoas, pela decadência, por serem lugares feios, lugares onde toxicodependentes ou sem-abrigo se reúnem ou lugares doutras atividades não regulamentadas. Recentemente em residência na Michaelangelo Pistoletto Foundation, em Biella (Itália) com mentoring do artista Americano Rick Lowe (conhecido pelo projecto “Project Row Houses” ou mesmo “Victoria Square” para a Documenta 2014), eu pude entender nos nossos exercícios práticos na cidade de Biella, fortemente afectada pela crise financeira e migração da sua população para cidades vizinhas deixando enormes edifícios industriais completamente ao abandono, que o que me interessa com o meu projecto de exposição na Galeria Presença é reflectir sobre as implicações culturais e políticas das ruinas industriais. Eu tento olhar de forma positiva para estes lugares abandonados como cenário e promessa do inesperado. O tipo de arquitetura é fascinante, é como se o tempo tivesse parado no momento em que o edifício foi deixado ao abandono. Olhando mais de perto, podemos ver que o tempo também passa por ali: as plantas continuam a crescer e novas pinturas de graffiti aparecem numa das paredes. Estes edifícios industriais contêm uma história rica de anos mais recentes aos quais eu posso relacionar-me através de minha própria memória ou de histórias familiares.

Para a minha primeira exposição individual na Galeria Presença criei obras que não apresentam respostas, mas antes um comentário em espécie de comemoração que incentiva as pessoas a desfrutarem das ruínas industriais como espaços de lazer e imaginação, tal como sugere Edensor (2005) no seu livro “Ruínas Industriais”. Inspiradas pela estética de desordem, surpresa e sensualidade das ruínas industriais da Companhia Portuguesa do Cobre (Porto), da Ceres Cerâmica (Coimbra), dos tanques para curtimento de couros (Guimarães) e dos Têxteis Sampaio Ferreira que me ofereceram visões sobre o passado e um encontro táctil com espaço e materialidade, estas obras construídas essencialmente com materiais industriais, tais como ferro, alumínio, inox, vidro e espelho, estão intimamente ligadas à nossa memória colectiva, ao desejo e ao lugar. Talvez uma forma de não deixar cair no esquecimento esta parte da nossa historia, “o tempo de abandono”, depois destes edifícios em ruínas serem demolidos, recuperados ou lhes seja dada uma nova função (comercial, habitacional, etc), várias das obras que compõem a minha exposição são inspiradas pela geometria, materialidade e cor dos elementos aí encontrados.

- Marisa Ferreira, 2017